Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006
Serões em Valdanta (1)

                   

Estamos no Inverno com as noites grandes, frias e desconfortáveis sendo necessário muita roupa para dormir quente e agasalhado. Hoje, as casas são aquecidas, calafetadas e não há grandes problemas para se estar quente dentro de casa, mas noutros tempos não era bem assim. Para aquecimento apenas existia o lume da lareira e a lenha tinha-a quem era dono dos montes ou possuía árvores para limpar, como oliveiras, freixos, carvalhos ou castanheiros. As casas não eram isoladas e o ar entrava por tudo quanto era buraco, pois não havia vidraças e os telhados eram a telha vã. Em noites de temporal, as correntes de ar e o barulho da passagem do vento assustavam qualquer pessoa e até a neve invadia toda a casa.

Para dormir, mais ou menos quente, era necessário ir para a cama vestido, porque não havia pijamas e o frio que se apanhava numa troca de roupa dava para congelar. Os cobertores de papa, que eram haveres apenas de alguns, mais abastados, não eram muito confortáveis e pesavam de tal maneira no corpo que uma pessoa quase não se mexia debaixo da roupa. Os menos abastados utilizavam mantas de burel que picavam no corpo e não eram lá muito quentes, acrescentando ainda capotes e outros agasalhos para fazer frente ao frio. Os lençóis eram de linho grosso, também pouco confortáveis e só ao alcance de poucos, por isso quem podia utilizava cobertores de algodão a fazer de lençol, o que, diga-se em abono da verdade, eram os mais quentes e confortáveis.

Dormir vestido era o normal, mas havia casos de excepção, que era o caso dos garotos que se portavam mal e eram castigados com uma ida para a cama sem qualquer roupa vestida, isto é o mesmo que dizer que dormiam nus ou “dincouros” como se diz em Valdanta.

Antigamente os serões eram frequentes e grandes, à volta do borralho e à luz da candeia. Ceava-se cedo, pois com o pôr-do-sol vinha a noite e não se podia fazer grande coisa porque não havia luz eléctrica. Os garotos, normalmente, é que estavam cansados da brincadeira que se prolongava até ao toque das Trindades e depois de fazer os “deberes” da escola à luz da candeia estavam mortos para ir para a cama, só que era necessário rezar o Terço em família e isso fazia-se depois de cear, enquanto as mulheres lavavam a louça e arrumavam a cozinha. Um dos membros mais velhos, normalmente a mãe ou o pai, pegava no terço, oferecia os mistérios e dava início à recitação.

Em casa do ti Zé Benedito, patriarca da família da tia Albertina Perronha, existia tudo isto, frio, buracos na casa, pouca roupa e a reza quotidiana do Terço. Tiveram vários filhos que foram saindo de casa, pouco a pouco, uns atrás dos outros, até que ficou em casa apenas o João, o mais novo, que também saiu e foi para o Uruguai, onde, infelizmente veio a falecer ainda novo.

Estando um dia a fazer a recitação do Terço, o João, que estava cansado da brincadeira, começou a dormitar e em vez de rezar, dormia, como é óbvio e de vez em quando ouvia-se a voz do ti Zé Benedito:

- Ascorda rapaz…  e reza!...

Às tantas, e já quase no fim da reza como o João continuava a dormitar, o pai que estava rezando:

- Abé Maria ………Bendita sois bós … (diz enfurecido) bais drumir dincouro … entre as mulheres ……

 

Mesmo assim éramos felizes e estes serões trazem muita nostalgia. Proponho-me contar aqui como eram passados os serões em Valdanta por volta dos anos cinquenta. Até lá com a fotografia da casa do ti Zé Benedito desejo-vos um Santo e Feliz Natal.

 



publicado por J. Pereira às 15:59
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6 comentários:
De Dinis Ponteira a 23 de Dezembro de 2006 às 11:32
linda imagem de valdanta, aproveito para lhe desejar um ótimo Natal e um ano Novo cheio de coisas boas, um abraço. dinis


De Sem Nome a 1 de Março de 2007 às 19:20
Foto linda! Sem dúvida...
Mas tem um azul a mais...

A casa azul é uma aberração da natureza... esta veio substituir a casa do meu avó Morilho...
Não me refiro-me á casa em si, mas à entrada para a garagem, esta "matou" a fonte antiga...

Passem por lá e admirem...
Agora se alguém for namorar para a fonte, corre o risco de uma roda lhe passar por cima.

Quem se atreveu a autorizar????

Braga


De lontra mandona a 4 de Março de 2007 às 16:44
tens toda a razão é uma aberraçao não só o azul como a entrada ficar do outro lado, sa recordaçoes do tio murilho e do zeca ainda são muitas quando ai vou e passo pela rua e sinto uma grande magoa por não terem tido coragem suficiente para alterar o rumo da construçao e manter a entrada no seu devido lugar


De Sem Nome a 1 de Março de 2007 às 20:07
Correcção
Queria dizer: "Não me refiro à casa em si..."

Braga


De J. Pereira a 5 de Março de 2007 às 09:51
Lai
Por acaso não tens nenhuma fotografia antiga que mostre a casa do teus avós Morilhos?
Para mim era a casa mais bonita de Valdanta e nem imaginas o que senti quando vi o que estava no lugar dela.


De Sem Nome a 5 de Março de 2007 às 17:32
Não tenho nenhuma foto, Zé. Com muita pena minha.
Vou tentar arranjar. Depois envio-te.

Continua Zé com este BLOG.
É uma delicia, uma boa companhia.
Tenho tentado divulgá-lo, às gentes de Valdanta que se encontram fora. Por isso CONTINUA... SEMPRE!

PARABÉNS!!!!

Aguardamos AS TUAS "ESTÓRIAS"

Braga


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