Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Terça-feira, 14 de Novembro de 2006
Os Rebusqueiros

Talvez já não seja da lembrança de alguns, mas eu lembro-me muito bem do tempo do rebusco, principalmente naqueles anos a seguir à 2.ª Grande Guerra e até ao início da emigração nos anos sessenta. Eram, de facto, tempos de muita fome.

Rebuscava-se castanhas, azeitonas, batatas, espigas de centeio, cachos de uvas e tudo o que houvesse caído ou esquecido das respectivas colheitas. Apanhavam-se uns guissos de lenha para o lume com muito cuidado, às vezes não caísse ao correr da espinha, o rabo do sacho, que acompanhava sempre o proprietário. Apanhava-se uma melancia ou um melão pensando que o dono já o não queria e por aí fora.

Para evitar alguns contratempos e inconveniências, tais como chegar à vinha e encontrá-la vindimada, ou contar com as batatas para o governo do ano e encontrar o sítio, construíam-se umas cabanas (ou barracas) em palha, principalmente nos melanciais, para dormir por lá e guardar o respectivo renovo.

Lembro-me muito bem dos grupos de rebusqueiros que vinham dos bairros periféricos da cidade à procura do seu governo, principalmente dos bairros da Várzea, dos Aregos e do Telhado, não olhando a meios para atingir os seus fins. Para isso chegavam muitas vezes de noite ou na hora da sesta, obrigando a que, nos tempos das uvas, melancias e batatas, os cuidados e vigias tinham que ser redobrados, obrigando os proprietários a incursões nocturnas e pela hora do calor a fim de preservar os seus bens.

O Quim Morilho, na altura um rapaz na casa dos trinta anos, solteiro, bom caçador e amigo de andar por lá, sempre a horas mortas, tinha um afilhado que o admirava muito e nutria por ele uma paixão especial principalmente por ser bom caçador. Aqueles olhos, quase que  estouravam na cara do garoto quando via chegar o padrinho com um ou dois coelhos ou uma perdiz pendurados à cintura. Um dia, andando ele com outros miúdos a brincar junto à fonte de baixo (no povo), e vê o padrinho com a espingarda às costas pronto para sair. Larga tudo e dirige-se ao padrinho:

- Sa bença, padinho.

- Deus ta bençô. Responde o Morilho.

- Aonde bai?

- Té à Beiga da Granja.

- Que bai fazer?

- Bou ber se beijo algum rebusqueiro.

- Tamém podo ir?

- Bai pedir ó teu pai.

Dois saltos de contente e uma corrida até casa. Não demorou muito que o garoto estivesse ali ao lado do padrinho pronto para o que desse e viesse e com toda a naturalidade do mundo pergunta ao padrinho:

- Ó padinho, padinho!... sse matares um rebusqueiro podo tazê-lo éu pindurado no cinto?.....

 

 

 



publicado por J. Pereira às 12:21
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6 comentários:
De Vitor a 15 de Novembro de 2006 às 23:42
olá!! está tudo bem??
A estoria ta muito fixe, quem era o afilhado do Quim Morilho ??
Fica bem...


De J. Pereira a 16 de Novembro de 2006 às 09:15
Ó Vitor, não se pode dizer.


De Sem Nome a 18 de Fevereiro de 2007 às 00:59
Estou com curiosidade

Também queria saber quem é o afilhado???????
Será o "Nel" da TIA ARMINDA?

Braga


De Sem Nome a 2 de Março de 2007 às 20:35
Não o afilhado devia ser o Zé da tia Arminda

Ass: Inês (Braga)


De cmpsantos a 5 de Março de 2007 às 23:58
Inês estou de acordo contigo, mas não podemos ter a certeza. Então (Nês) quando é que vens a Cascais ver o novo Pereira (Diogo) de seu nome.
Espero por vocês este ano por cá.
Beijinhos para vocês as duas.
Carlos


De Lai Cruz a 6 de Março de 2007 às 17:29
Beijinhos para todos!!!!


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J. Pereira
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