Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Quinta-feira, 5 de Março de 2009
O TIO ZÉ MANCO

 

 

 

A mulher chamava-se Luísa.
Moravam na Casa do Campo.
Pegados, um pátio e pequeno quintal.
A cozinha era, também, quarto e sala de jantar e sala comum.
A sala era de visitas e, na mesma, quarto.
Na frente da casa um estreito corredor fazia de salinha de costura e aproveitado  para dois quartinhos minúsculos.
A varanda, em madeira, que dava para a sala e os quartitos, era o mais lindo mirante para toda a ubérrima Veiga de Chaves.
Os fundos, divididos na corte e na adega.
A Fina, o Tó, o João e a Maria de Jesus eram os filhos do tio Zé Manco e tia Luísa.
Com eles vivia a Tia São.
Na cozinha, ao lado da cama, ficava o “ alçapão “, - buraco no soalho pelo qual se dava comida ao gado na corte.
E, durante muitos anos, uma história houve a ser muitas vezes e gostosamente contada.
Ei-la:
A tia São tinha um neto muito bonito. E todos gostavam muito dele.
A Fina e a Jesus estavam deitadas na cama, e qual delas a mais ciosa de ficar com o menino nos braços.
Puxa uma, puxa outra e o bebé cai ao chão, rebola e mergulha pelo buraco.
Do susto nem é bom falar. E, a correr, lá foram todos pelo pátio e o quintal à procura do menino na corte.
E, grande espanto e enorme alegria – o menino caíra num monte de estrume, no meio do rebanho, sem uma beliscadura.
E, de cada vez que a história era contada, mais um pedacito de alívio para as primas e família.
E o mimo desses primos, tios e avó sentiu-o, o menino, toda a vida enquanto eles foram vivos.
O tio Zé tinha, “ ao ganho “, uma junta de bois.
Na Era em que os luares ainda eram belos e contemplados, as noites cálidas e a Sírio guiava os boieiros e pastores, as chaminés fumegavam a anunciar a Ceia e o chiar dos carros de bois avisavam da chegada dos trabalhadores.
Das treitouras e do eixo soavam os sons de violino acompanhados por vozes de comando do condutor do carro e contrapontos das rodas a tocarem aqui e acolá nas pedras soltas no caminho.
Era lindo de se ver e delicioso de ouvir o regresso dos trabalhadores a casa, ao fim de um dia estival de trabalho.
Pelo Junho/ Julho faziam-se as segadas.
Ranchos de homens com as seitouras bem afiadas acompanhavam o nascer do sol iniciando o corte do centeio.
A meio da manhã, uma pequena paragem para homenagear Baco pelo garrafão, saborear umas postas de bacalhau frito acompanhado pelo sempre saboroso pão centeio.
Renovadas as forças, lá se  volta a segar e a emolhar.
As mulheres apressam-se para casa para atempar o jantar.
O neto da tia São ficava eufórico por ter tido a oportunidade de chegar o copo aos segadores ou, mais tarde, já levar o garrafão de vinho.
Era a sua parte na segada e que lhe “ dava direito “ ao cordeiro.
A essa hora já estava a entrar no forno, bem condimentado e a espalhar um cheirinho guloso pela aldeia.
O sol está a pino, a ceifa está a render e o jantar está na hora.
Os ceifeiros regressam a casa, alegres, bem-dispostos e, enquanto lavam e limpam as mãos, atiram bondosas piadas às cozinheiras para as apressarem a pôr a mesa.
Come-se, bebe-se e conversa-se animadamente, comentando, aqui e ali, as peripécias da tarefa.
Os molhos de centeio são levados para as eiras e, criteriosamente amontoados, formam as  medas.
Seguem-se as malhadas.
Com as sementes voltadas para dentro, dispõem-se os molhos, abertos, espalhados também ordenadamente e a justa distância.
Frente a frente as duas equipas de malhadores.
E, quais exímios artistas, ao ritmo da voz de cada mandador, os malhos batem no centeio mesmo a rasar a cabeça ou o pé do parceiro da frente.
Aos poucos, o malho foi substituído pela malhadeira.
O tio Zé Manco morreu.
O novo século aumentou a saudade e as peças no museu.
 
  
O neto da tia São - Luís da Granginha

 

 

O Tó - filho do tio Zé Manco

 

Uma segada em Trás-os-Montes

 



publicado por J. Pereira às 21:49
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4 comentários:
De A.Cruz a 6 de Março de 2009 às 13:37
Admiráveis memórias do Luís !
Quando nos poderemos "regalar", com todas elas?
Pelo menos essas nunca serão usurpadas!!!

Abraço


De chico (frança a 7 de Março de 2009 às 20:33
J. Pereira gostaria de ler uma historia do tio André Ovelheiro se à penso que sim porque este ainda o conheci .


De Jose Goncalves a 9 de Março de 2009 às 15:00
É destas segadas que nos os mais velhitos nos lembramos. Uma bela foto desses bons tempos.

Cumprimentos dos States .



De J. Pereira a 12 de Março de 2009 às 12:59
Esta fotografia foi tirada de um postal da zona de Macedo de Cavaleiros, mas não tem muito a ver com as segadas de antigamente.
Repare nas senhoras com roupa caveada a chegar a vencelha. Repare também no restolho. Quase nem parece de centeio ou trigo. Dá impressão que foi só para a fotografia ou em alguma comemoração. Também só se vêem os homens a atar, mas a segar nada.
Exitei muito se deveria colocá-la aqui ou não, mas à falta de melhor, aí vai. É uma amostra parecida.
Cumprimentos também para si e para todos quantos de longe nos vão visitando.


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J. Pereira
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