Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Estórias de Guardas e Contrabandistas

 

 

A vida de contrabandista foi, em tempos que já lá vão, o meio de governar a vida para muita gente de Valdanta, principalmente para aqueles a quem o cabo de uma enxada ou a rabiça de um arado faziam calos nas mãos.
Havia vários, que tinham começado no tempo do minério e tinham tomado o gosto a umas moedas angariadas à custa do negócio, nomeadamente o Blero, o Domingos Tripa, o Cleto, o Jaime Ferreiro, o Terronhinha e mais alguns. Os mais profissionais eram o Blero, o Terronhinha e o Jaime Ferreiro.
O Blero, normalmente trabalhava sozinho e sem grandes problemas, salvo alguns que tinha com os guardas-fiscais da terra, lá ia fazendo os seus negócios. Era um verdadeiro profissional do contrabando.
O Terronhinha e o Jaime Ferreiro trabalhavam em companhia, ou seja, em conjunto. Depois do negócio das pedras de minério que se tornou bastante rentável veio o negócio dos caramelos, boinas, polvo (pelo Natal), sapatilhas de pano que depois de duas idas à missa ficavam sem fundo, e mais algumas bugigangas de pouco rendimento.
A vida tornou-se difícil e o perigo de encontrar pelo caminho carabineiros ou guardas-fiscais era constante. O Jaime, também conhecido por Jaiminho, não estava a gostar nada da forma como a vida estava a correr, pois não ganhavam nem sequer para a “côdea”, quanto mais para um “copito” no Paraqueto ou no ti Folecro.
Pensava nisto tudo, o Jaime Ferreiro, numa noite de inverno, sem lua, escura como o breu onde qualquer movimento estranho assustava um morto quanto mais um vivo, quando juntos faziam mais uma caminhada com a mochila às costas e a barriga vazia sem grandes forças para levar a “carga a casa do dono”, quando teve uma ideia genial. O burro do moleiro, pelo menos tinha comida à farta para poder aguentar com a carga, mas eles não. Se, ao menos, estivesse preso, não passava por estas desgraças todas e tinha uma cama onde dormir sossegado, comida na mesa a tempo e horas certas. Porque é que não havia de ir preso? O que é que tinha que fazer para melhorar o seu modo de vida?
Era isso… Fazia uma asneira, ia preso e lá apareceria alguém que tratasse dele…
Ia pensando ele, durante a caminhada, que quanto mais andava mais caminho tinha pela frente, mais vazia sentia a barriga e mais pesada se tornava a mochila.
- Isso não Jaime que ele é teu amigo e também sofre como tu!
Pareceu-lhe ouvir uma voz, que assim dizia, quanto uma ideia que lhe veio à cabeça o começou a importunar. Era preciso fazer alguma coisa, senão como é que o metiam na cadeia? Só podia ser isso, matar o seu amigo Terronhinha e ir preso.
Não podia ser, pensava ele e voltava a ouvir a mesma voz que lhe falava da mesma forma.
- Porque é que queres matar o teu amigo?
Não me faltava mais nada, não me bastava a carga, a fome, a sede, ai a sede, o perigo de encontrar a guarda, a noite escura e o frio, sujeito a cair nalgum buraco, e ainda por cima esta maldita voz que mais parece do outro mundo, ia pensando ele enquanto caminhava vergado pelo peso do contrabando, encostado ao pau que lhe servia de apoio e guia. Nem no tempo do minério era tão dura esta vida de contrabandista, mas nesse tempo havia dinheiro à grande e à francesa, embora os seixos fossem mais pesados, continuava pensando ele.
Deixou de pensar e num golpe certeiro desferiu uma paulada com a vara na cabeça do Terronhinha que o deitou por terra.
Olhou para o amigo, pediu-lhe desculpa, dizendo-lhe que agora teria que ir cumprir a pena que o Tribunal lhe destinaria, descansadinho na prisão. Acabaram-se os trabalhos para os dois, um ia para o sítio mais alto da aldeia, o cemitério, e o outro para a cadeia, onde descansaria regaladamente os últimos anos da sua vida.
Já estavam na zona dos Aregos, tirou-lhe a mochila, escondeu-a juntamente com a sua, não fosse o diabo tecê-las, e assim se dirigiu para o posto da GNR em Chaves para se entregar às autoridades e que lhe aplicassem o merecido castigo.
Caminhou lentamente, sem pressa nenhuma, pois as forças já não lhe permitiam grandes correrias. Chegou ao quartel e disse ao plantão que se vinha apresentar às autoridades porque tinha matado um homem.
O plantão chama o sargento de serviço e começavam a querer saber como é que tudo tinha acontecido. Quem era o morto, onde tinha sido, porquê é que o tinha feito, a que horas aconteceu o sucedido, não estava a dizer mentiras e mais perguntas que fazem parte do interrogatório policial.
Entretanto já os guardas que estavam de serviço, a dormir na casa da guarda, tinham acordado e estava tudo a tomar conta da ocorrência, quando aparece nas suas costas o Terronhinha. Os guardas pediram-lhe para esperar porque estavam a tomar conta de uma ocorrência onde tinha havido um morto, matado pelo denunciante.
O Jaime Ferreiro reconhece a voz do amigo e ainda mais assustado fica pois volta a pensar nas vozes do outro mundo e parece-lhe que o Terronhinha, já do outro lado, não perdeu tempo para o vir chatear.
Volta-se de repente e começou a mudar de cor, se é que tal coisa pudesse acontecer de tão escuro que ele era, começou por ficar branco, mudou para verde, mudou para vermelho até que lhe dá uma coisa e quase desmaia nos braços do sargento.
Os guardas animaram-no com um púcaro de água desferido de chofre nas bentas do ferreiro que era contrabandista, sentaram-no num banco e esclareceu-se toda a história.
O contrabando já não o tinham pois, se calhar, já lho tinham roubado e não sabiam dele, “porí” foram os carabineiros. Já não se lembravam dele. Não haveria por ali qualquer coisa que tivesse sobrado do rancho da ceia que desse para lhes aliviar o buraco da barriga? Havia. Deram-lhe o que tinha sobrado do jantar dos guardas de guarda nocturna, comeram, ainda comiam mais, mas já não havia. Mandaram-nos embora e que tivessem juízo pois da próxima castigá-los-iam severamente.
Foram-se embora, direitinhos aos Aregos e às respectivas mochilas. Carregaram-nas e foram para casa descansar, mas com a barriga mais aconchegada dormiram e no dia seguinte trataram do negócio para continuar a governar vida, já que a cadeia foi apenas uma ilusão passageira.
 
Zé Pereira
 
 

 

 



publicado por J. Pereira às 21:03
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