Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008
O Fumeiro

Fazer fumeiro é uma arte milenar e as mulheres de Valdanta sabem conservar essa arte com orgulho para nos deliciar com os melhores enchidos do mundo. Com estas fotografias de mulheres de Valdanta a confeccionar enchidos e um excelente "ramada" em casa da Céu apresento-vos mais um trecho do lvro "Crónica Triste de Névoa" do professor João Madureira que retrata com mestria este passo da nossa vida quotidiana.

 

 

… …
Entretanto, o Dr. José Fino, para mostrar aos amigos que não só sabe comer como, se for caso disso, é capaz de ajudar a confeccioná-las, abre os braços, olha para a plateia imaginária e dá início à dissertação:
- Para o fabrico das alheiras e demais enchidos, segue-se uma técnica muito antiga. Primeiro engata-se um grande caldeirão de cobre nas cadeias de ferro que pendem de um gancho negro de fumo do tecto da cozinha. O caldeirão, sobranceiro a uma grande fogueira de achas e torgos, para não destoar, também está revestido exteriormente por placas cristalizadas de fuligem. Para o panelão meado de água, lança-se a carne de quantos coelhos e aves se conseguiram “caçar” nas lojas e capoeiras da casa. Tudo isto é misturado com a carne miúda proveniente da desfeita do porco a que se juntam grandes fatias de trigo de Faiões. Depois é preciso paciência. Após demorada fervura, apeia-se o caldeirão para a lareira e começa a remexer-se a calda com uma colher taluda, não sem antes polvilhar a mistura com pimenta branca e de cor, alhos, pingue derretido e outros condimentos. O resultado é uma espécie de moada pronta para ser enfunilada. Ao lado, num alguidar de barro preto, já se encontram abertas as indispensáveis tripas que foram separadas e opadas pelo ar dos pulmões das mulheres de serviço. Estas artistas, previamente sentadas nos escanos situados à volta da lareira, enchem as tripas, segurando na mão esquerda o funil e na direita o fuso. As tripas. Vítimas da força cadenciado do fuso pressionante da calda, vão engrossando e desenroscando-se dentro do alguidar, à medida que a moada desliza.
- O que também desliza é esta pinga que mais parece um elixir dos deuses! – exclamou o Rosmaninho.
- A seguir, aquela espécie de ofídio é cortado em medidas certas e cada unidade é atada nas duas extremidades, que são ligadas ligadas uma à outra com algodão matrafão. É agora, meus senhores, que elas estão prontas a serem enfiadas nos lareiros onde ficam a baloiçar durante algum tempo e a pingar gordura sobre a cabeça dos néscios e demais assistentes. Daí a pouco olha-se para a fuga e já se podem admirar as decantadas alheiras da nossa região e tão apreciadas lá fora. Terminada esta tarefa, todo o pessoal e família da casa, chegam-se mais ao calor da grande fogueira reacendida e consolam-se com os apetitosos chisquetes do lombo do porco, resultantes da desfeita. Estes são assados no brasido, enfiados em longos e negros espetos de da forma de uma espada, comidos ainda a fumegar e benzidos com uma bela pingota, previamente emornecida dentro de um canjirão que permanece junto ao calor das queirogas. Antes de acabado e serão, ainda se podem ouvir algumas histórias, mais ou menos a preceito, contadas pelas velhas. Depois vai tudo para o vale de lençóis com o corpo aquecido por dentro e por fora. No dia seguinte, logo de manhãzinha, os mesmos figurantes preparam-se para a bravata dos chouriços que originam, novamente, outro pequeno dia de festa na casa. Os donos dela, os serviçais, mais os vizinhos do peito, são obsequiados com as opíparas opas tiradas da caldeira a que se junta uma miolada de comer e chorar por mais e ainda os tão apreciados ossos da assuã, que quase desapareceram de tanto ferver no avantajado caldeirão. Neste programa do fumeiro é o dia dos chouriços o mais marcante porque é nesse dia que todos comem à tripa forra e se enchem os afamados paloios de grossas tripas e sulcos salientes, mimosos enchidos que hão-de ser sacrificados lá para o Entrudo, acompanhados de fresca grelada. Pois então! No dia seguinte fazem-se as linguiças e a fina flor do fumeiro, os salpicões, que levam carne especial: o lombo, os lombelos, a língua e as mais tenras e magras assaduras. Aos salpicões também é destinada a mais fina e lisa tripa do intestino grosso do porco. E, porque já tenho demasiada água na boca e porque a Florindinha já ali traz a segunda dose de alheiras, agora calo-me e como. E vocês comam também, porque calados já estão há um bom bocado.
… …
 
Quero aqui expressar a a minha gratidão ao Prof. João Madureira pela gentileza que teve em me oferecer o livro "Crónica Triste de Névoa" e a minha admiração pela maravilha que nos proporciona com as suas "estórias", levando-nos para um mundo real e que ainda há muito pouco tempo era o nosso quotidiano.
Bem Haja, João Madureira e continue a deliciar-nos com a sua arte.


publicado por J. Pereira às 11:26
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