Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Domingo, 12 de Agosto de 2007
“” A CORNETA DE S. CAETANO””

 

DSCF0062

Em direcção ao S. Caetano

Era Agosto.
Foi a Festa de S. Caetano!
Naquele ano, a Avó não levou consigo o NETO, até aoCouto de Ervededo.
Mas, para o compensar, trouxe-lhe um brinquedito feito de lata, a brilhar como uma prata e enfeitado com uma linha de tinta alaranjada, que abraçava a corneta em enleio.
O S. Caetano, no Couto, e a Srª. da Saúde, em S. Pedro de Agostém, eram Festas aonde a Avó, e milhares de romeiros, iam cumprir as promessas feitas durante o ano.
A santa Bárbara rezava-se quando trovejava   -  e com mais fervor e em voz mais alta quando as trovoadas vinham dos lados de Vidago.
A santo António, quando os porcos, as galinhas, os coelhos ou os chinos mostravam sinais de maleitas, ou, então, quando não se sabia onde se tinha pousado a colher, o pente, o dedal, o botão, o terço, o postal ou a carta recém – recebidos.
Na CAPELA da GRANJINHA,  que sempre ouvi dizer ser de S. Sebastião, e agora é de mais dois ou três santos, rezava-se o Terço ou faziam-se orações, às vezes cantadas, por altura das Penitências.
A missa domingueira da Freguesia era substituída, por alguns, indo à da Capela das  Casas-dos-Montes. Esta dava mais jeito porque, logo ao lado estava o Latoeiro, a Taberna, o Soqueiro e o Zeca Penedo Barbeiro; mais acima, o Pàraqueto, a Hermínia dos Frangos, a Mercearia do Pinho e o “Branco”  - que vendia «Tinto» e , depois, passou a  “Pastoria”, que vendia dos dois.
A fé das pessoas da Aldeia sempre foi muita.
As bênçãos é que foram sempre demasiado poucas!
As pessoas daquele tempo foram os meus maiores heróis.
A sua humildade era tão elevada quanto a sua dignidade.
Quanta grandeza de espírito e de coração!
Os bedrelhos de memórias de alguns são testemunha do que escrevo.
A Aldeia, A GRANJINHA, tem consigo um eterno e insondável mistério: pronunciar ou lembrar o seu nome parece ter um efeito dramático para os administradores públicos    -  entope-lhes, bloqueia-lhes os túneis da mente.
Convertam-se as Cornetas de S. Caetano em Trombetas de Jericó e soprem-se a plenos pulmões nas «trombas» e nos ouvidos desses impantes com túneis da mente entupidos!
OH! GRANJINHA! GRANJINHA!      
Quando é que os teus NETOS te vingarão?!
Naquele ano só chegou uma Corneta de S. Caetano.
No Campo, na parte de baixo, pastava um rebanho de ovelhas e cordeiros.
A “Carriça” e a “Cornela” eram as matriarcas e as mais atrevidas e ladinas a irem para onde não deviam. Davam cabo da paciência aos rapazes e raparigas da Tia Luísa do Tio Zé Manco.
Mas o rebanho era imperialmente comandado por um avantajado, e fortemente armado, carneiro merino.
E “Merino”dava pelo nome!
À sombra da amoreira, perto do muro da casa do João Carteiro, e a cuja janela a Alcina dava a teta à filha Hermínia, enquanto olhava o Campo, a Aldeia e a Cidade, o NETO daquela Avó que trouxe do S. Caetano uma prendinha especial, mais impante do que todos os da administração pública, soprava, radiante, entusiasmado e com toda a força, na corneta de lata enfeitada com a risquinha de tinta alaranjada.
As vozes dos aldeãos; o chilrear da passarada; o chiar dos carros de bois; o zurrar dos burros da Tia Quinhas do Ti’António Guarda ou dos da Tia Maria do Campo; o ladrar dos cães, ou o apito do comboio ao passar na Ribeira, em S. Fra(g)ústo ou a aproximar-se da Fonte Nova; ou mesmo o claxon do Balila, na recta do Raio X, ou a subir “Outei’jurzão”; e, até mesmo, o soar da sirene dos Bombeiros, ou das Fábricas do Campo da Roda, nada disso alterava o humor do rebanho, tão pouco o do “Merino”.
Mas a Corneta!...
“Grande Porra!”, dirias tu, se a sesta se te interrompesse com aquele Si de som agudo em compasso “centenário”, repetitivo.
Que Grande Ca(e)tano!”, fungou pelas narinas beiçudas o “Merino”.
A Alcina mudava de teta à Hermínia e não pôde dar conta da tragédia.
Irritado, o “Merino” levanta um galope diabólico e fulminante e, sem a Alcina dar conta, aplica uma turra estrondosa no fundo das costas do NETO que soprava, mais impante do que os da administração pública.
Das cinco para as seis da tarde, nos dias de Agosto a seguir à Festa de S. Caetano, a sombra da amoreira do Campo já media umas sete vezes a sua altura.
Com a turra do carneiro merino, o NETO que tocava impante a Corneta de S. Caetano, atravessou em voo o Campo e estatelou-se no lado de lá do caminho, junto ao muro que desce para o Lavadouro, o Bebedouro e a Fonte de mergulho lá no fundo da Aldeia.
Do lado de dentro da parede, pousado naquele negrilho forte e enorme, que lhe servia de palácio, o melro - mor da GRANJINHA assobiou com mais trino.
-“Ai Jesus!  Aqui d’El-rei!!  Acudam!!!   Ó Jesus …us…us!”
O povo, aflito, correu atrás dos mistérios que encerravam os gritos de socorro da Alcina do João Carteiro.
E o NETO feliz, prendado pela Avó que não o levara ao S. Caetano, lá foi levado ao GARCIA, que, afinal, era quem fazia milagres!............
 
Luís da Granjinha
 ganjinha-bl
 

 

 



publicado por J. Pereira às 14:06
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5 comentários:
De Granjinha a 13 de Agosto de 2007 às 17:30
Admirável "retrato" de memórias irrepetíveis na actualidade!
Os "homens" teimam em destruir os «quadros» com que a natureza nos brinda...
A concepção do BELO será sempre subjectiva, mas haverá sempre um mínimo comum a todos os mortais mesmo para os néscios...
Nesta altura nem todas as cornetas do S.Caetano tocadas por todos os "NETOS" em conjunto com a simples sineta da Capela da Granjinha serão capazes acordar os "Vendilhões do Templo" ...
Há "promessas" muito caras para cumprir...
Já agora que me risquem do mapa, antes banida que humilhada!!!


De J. Pereira a 14 de Agosto de 2007 às 10:20
Já são 40.000 visitas no Blog. Estamos todos de parabéns.
Quem não está de parabéns é a Granjinha porque contiunua esquecida de tudo e de todos. Não consigo entender como é que uma povoação com o passado histórico e beleza natural que mostra e que são visíveis e dignos da admiração de toda a gente continua a não querer ser vista por quem de direito.
O sua localização a dois passos de Chaves, mesmo ao lado do Alto da Forca e do bairro da Várzea não dará olhar para esta terra abandonada e tão rica em pergaminhos? Pois é não dá votos e neste momento da tal dita "democracia" só isso é que conta.
Louvo a resistência e teimosia do sr. João Cruz em continuar a residir neste deserto de ideias, investimento e carinho, desejando que a sua saúde melhore para continuar a lutar por esse pedaço de chão impregnado de História.


De A.Cruz a 14 de Agosto de 2007 às 11:21
40.007 !!!
Parabéns ao Blog especialmente ao seu mentor J.Pereira, à sua resistência, persistência e carinho pela freguesia de Valdanta.

Um Abraço


De CANDO a 15 de Agosto de 2007 às 11:07
15 de AGOSTO - N.ª SENHORA DA LAPA

Missa e procissão abreviada!
Sem bailarico nem foguetório...
Definitivamente as tradições na freguesia de Vale de Anta já não são que eram.
Por este caminhar tudo se perderá até as memórias!

Granjinhadino/Candulense , que também é Valdantano !


De José Costa a 17 de Agosto de 2007 às 20:26
Felicito o senhor Luís da Granjinha por esta bonita crónica alusiva aos bons velhos tempos da nossa freguesia, contada com humor, num estilo muito próprio e muito sugestivo. Parabéns! Gostei!
Quanto à Granjinha, estou plenamente de acordo com o que diz o Zé Pereira.
Um abraço.


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J. Pereira
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