Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Domingo, 25 de Fevereiro de 2007
Encomendação das Almas

O dia de Carnaval disponibilizei-o para fazer uma recolha cultural de Valdanta. Foi quase infrutífero o esforço, pois a pessoa que eu procurava, o Lelo do Parada, já não se lembrava do tema requerido. Defraudado com o assunto prestava-me a seguir o meu caminho quando uma pessoa que por essa altura morava junto à Cruz me disse que se lembrava do primeiro verso.

A Celeste do Cleto lembrava-se e prestou-se a dizer-me. Para ela o meu muito obrigado e espero que este post possa servir de alerta para que, quem se lembrar,  divulgue os versos, aqui ou noutro sítio para que não se perca o conhecimento deste culto.

Neste Cruzeiro ou, simplesmente, Cruz situada no centro da povoação de Valdanta em tempos, não muito distantes, durante a Quaresma fazia-se a Encomendação das Almas.

Era uma cerimónia simples feita apenas por um único homem, o senhor Aníbal Parada, mas respeitada e seguida por toda a gente do Povo onde se ouvia a sua voz. Nesse tempo não havia luz eléctrica, por isso também não havia iluminação pública, o que tornava a cerimónia mais comovente e de sentimento mais profundo e ao mesmo tempo arrepiante. Era respeitada e seguida nas casas vizinhas com a mesma devoção que se dava ao toque das Avé-Marias.

Era por volta das 8 - 9 horas da noite que o ti Parada chegava ao cruzeiro e com ar solene e respeitador iniciava a encomendação das almas. A Encomendação das Almas era feita em verso, por isso era sempre cantada.

Em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo.

Hoje Figura, amanhã sepultura.

O manso cordeiro tornado leão, que sendo assim verdadeiro, os maus o sentirão,

Pois a morte nos há-de buscar, de noite e mais de dia.

Rezai um Padre-Nosso e uma Avé-Maria em louvor de Jesus Cristo e da Virgem Maria.

Suponho que eram seis os versos da encomendação das almas e em cada solicitação de oração o encomendador ficava em silêncio e orava também pelas almas.

Por hoje ficamos assim, mas peço a todos que ainda se lembram desta cerimónia e devoção que façam um esforço para que na próxima Quaresma tenhamos aqui a oração completa.

 

 

 



publicado por J. Pereira às 21:42
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""" UM C Ã O B E T E R N Á R I O """



Na Freguesia de VALDANTA, o preceito dominical era cumprido na Igreja de S.
Domingos.
Como de costume, antes do sermão de pequenos sermões aos paroquianos, o
padre fazia os «Avisos».
Naquele domingo, o padre avisou, além de mais, que ""na 5ª.fª. seguinte à 3ª
Feira semanal, que é às 4ªs.feiras, como toda a gente sabe, e a 1ª.Feira do
mês tinha sido na 4ª.fª passada, como estão lembrados, todos os cães da
Freguesia tinham de ser levados ao Doutor «Beternário» para serem
«ascultados» e «bacinados»"".
Avisou e sublinhou: -""Que ninguém falte, pois o Regedor sabia de todos quem
os tinha"".
No regresso da missa toda a gente trazia para as suas aldeias  -  Cando,
Abobeleira e Granjinha  -  os recados do sr. padre.
No estreito Largo da Capela, lá na Granjinha, o QUIM DAS CHARDAS ENCONTROU O
TIO QUIM DA TI'AUGUSTA.
Falaram do tempo, das batatas, das vinhas, do gado ...e dos cães.
- "Então ó Quim, sempre vais à cidade levar o cão? - pergunta o TIO QUIM DA
TI'AUGUSTA, a começar um novo capítulo da conversa.
- O QUIM DAS CHARDAS espirra, e responde:
- ""ÒMESSAPORRA!""
- "Então porquê?" - pergunta o TIO QUIM DA TI'AUGUSTA.
- ""O cão é manso. Está bem tratado. É fino que nem um ladrão! - acrescenta
o QUIM DAS CHARDAS. "Nesse dia queria ir até ao "Valcovo" cortar um lenha",
remata.
- "Pois é!" - diz o TIO QUIM DA TI'AUGUSTA. -"Mas lá tem que ser!"
O QUIM DAS CHARDAS voltou a espirrar.
E lá foram à vida de cada um.
Os dias seguintes ao dia da missa passou-os o QUIM DAS CHARDAS com menos
tranquilidade do que aquela que sempre levava consigo.
Coçava a cabeça   -  não era dos piolhos, ó marotos! - e, às vezes, falava
sozinho.
Sempre que ia segar erva, lavrar, regar, roçar mato, levar o gado a beber ou
ir de uma casa a outra, o seu fiel cão acompanhava-o para todo o lado.
Naqueles dias seguintes, o QUIM DAS CHARDAS resolveu chamar o cão por outros
nomes: Tejo, Leão, Tormenta, Nero, e sei lá que mais!
Mas o cão não se dava por achado.
Na 5ªfª. seguinte à 4ª.fª. da 3ª Feira do mês os cães da Freguesia lá foram
à Cidade.
E o QUIM DAS CHARDAS levou o dele.
As Feiras e as «Vacinas dos cães» também são oportunidades de se estar com
os amigos, saber notícias dos outros lugares e até de se combinarem alguns
negócios.
O QUIM AVELEDA, do CANDO, notou no QUIM DAS CHARDAS um ar que não era
costume.
Virou-se para o QUIM DO TI'ANTÓNIO CARNEIRO, do CANDO, e alvitrou:
-" Ó QUIM, o QUIM DAS CHARDAS está com uma cara «esquesita». Se calhar é
pela demora em passar pelo Mondariz para petiscar umas almôndegas " - no
tempo em que a Tasca do Galego fazia de sala de espera da Casa de Saúde do
Dr. Alcino. "Ou então pelo atraso em se passar pela Taberna do Branco"-
local de celebração de despedida dos que iam  para a Granjinha, Cando e
Valdanta.
-"Bem m'eu finto!" - retorquiu ambiguamente o QUIM DO TI'ANTÓNIO CARNEIRO,
do CANDO.


Chegou a vez do cão do QUIM DAS CHARDAS.
- Então, sr. Joaquim, vem de Valdanta? -  inquire o Doutor «Beternário».
- Sou de Valdanta, senhor doutor, sim, senhor. Mas venho da GRANJINHA  -
respondeu, respeitosamente, o QUIM DAS CHARDAS.
- Ah! Muito bem!  -  diz o Doutor,
- Então o cão queixa-se de alguma coisa?  - pergunta o «Beternário».
- Bem, senhor doutor, ele come que nem um boi, ladra que nem um burro e
corre que nem um cavalo!  -  diagnostica o QUIM DAS CHARDAS.
Enquanto prepara a vacina, o Doutor lança o seu científico olhar ao
fissípede, e pergunta:
- Ó sr. Joaquim, como é que se chama o cão?
(Não fosse o QUIM DAS CHARDAS aquele homem valente que toda a gente conhece
e lá teria o Doutor Barnard de antecipar o seu transplante!...)
O QUIM DAS CHARDAS espirrou. Voltou a espirrar. E voltou a espirrar!
O Doutor vacinou, vacilou e olhou para o dono do cão.
- Então por que nome dá o cão, sr. Joaquim? - acentuou o «Beternário».
-Ó senhor Doutor, espero que não se ofenda. Mas é que me custa dizê-lo! - 
desabafou o QUIM DAS CHARDAS, com aquele jeito de voz tremelicada,
acompanhado daquele «dar de ombro» tão seu.
-Ó homem, esteja à vontade! -  contemporizou o Doutor. Diga lá o nome do
bicho!
O QUIM DAS CHARDAS volta a espirrar . e a espirrar. Cora que nem um pimento.
Trejeita o ombro com aquele «dar de ombro» tão seu, e exclama:
- ""DOUTOR"", senhor Doutor!!!


(Em memória de Dois Amigos, da Granjinha)
Tupamaro

sinto-me: Honrado

publicado por J. Pereira às 00:36
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007
Afinal somos todos BURROS

Afinal somos todos uma cambada de burros que aqui andamos.

Nós é que não conseguimos entender que fechando as urgências nos Hospitais e Centros de Saúde ficamos mais perto deles.

Explique-me lá isso outra vez, senho ministro da preidência, mas desta vez como se eu fosse mesmo muito burro!...

O que a seguir se transcreve foi hoje publicado no Jornal Digital, após uma reunião do Conselho de Ministros:

Governo quer aproximar cidadãos dos serviços de urgência

O ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, afirmou hoje que o Governo pretende reduzir dos actuais 450 mil para 50 mil os cidadãos que residem a mais de uma hora de serviços de urgência de saúde.

«Das actuais 450 mil pessoas que estão a mais de uma hora de serviços de urgência, o Governo pretende reduzir esse número para 50 mil», declarou Pedro Silva Pereira no final da reunião do Conselho de Ministros.

Em conferência de imprensa, o titular da pasta da Presidência frisou que o objectivo das políticas do executivo «é aproximar e não afastar as pessoas dos serviços» e reforçou que o Governo «ainda não tomou uma decisão final sobre os serviços de urgência que serão encerrados.

«Como o ministro da Saúde [Correia de Campos] tem explicado, ainda não há qualquer decisão política final sobre a questão da rede de urgências. Todos os agentes envolvidos neste processo sabem disso», frisou Pedro Silva Pereira.

«Há apenas uma relatório técnico que foi apresentado por especialistas ao ministro da Saúde e que está a ser ponderado, que terá a seu tempo uma decisão final», reforçou.

Diário Digital / Lusa

22-02-2007 15:10:00

Afinal em que ficamos? Ou como diria o Blero : - "São casos acontecidos"



publicado por J. Pereira às 15:48
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Hospital de Chaves - Urgências

Em Chaves o Povo saiu à rua e disse o que pensava.

Veja o Blog de Chaves em http://chaves.blogs.sapo.pt/

Comente e diga da sua justiça

 



publicado por J. Pereira às 14:36
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Sábado, 17 de Fevereiro de 2007
Ao sr. João Pereira da Cruz e Esposa dedicado por Tupamaro

Publicar aqui um post com a colaboração de alguém é sempre um motivo de satisfação e alegria, mas publicar uma dedicatória tão nobre vindo do meu amigo Tupamaro é também, além do mais, um motivo de orgulho. Este post é pois, dedicado ao João Cruz e à Nídia Petim com texto de Tupamaro e fotografias minhas e do livro “Festas e Romarias de Portugal”. João melhora rápido e depressa. Um abraço.
 
 
 A um  VALDANTANO-CANDULENSE-GRANJINHADINO

O Dinis e o Fernando, sublimes artistas - fotógrafos transmontanos, subam,
ao Miradouro de S. Lourenço e às ameias do Castelo de Monforte, num nascer
de sol orvalhado, tirem "uma das suas!" fotos e vejam se não é uma
gargantilha de ouro debruada no decote da "Cidade", que Abobeleira,
Valdanta, Cando e Granjinha desenham e apõem com "a tal" formosura!
Ciosa do seu adorno, "a Cidade" já deitou a mão à Abobeleira. E, assim, já
mal se nota a linha de costura entre ambas.
Empurrando as Casas-dos-Montes, "a Cidade" está quase chegadinha a Valdanta
e ao Cando.
E do lado do Monte da Forca quase a apanhar a Granjinha.
Dos lugares da Freguesia, "a Cidade" só lhes quer receber e desfrutar
egoisticamente os méritos, os tesouros e os encantos, naturais, históricos,
humanos e imos.
Que lhe tem oferecido ou proposto por recompensa?
Adivinhe-se!
Sim, adivinhe-se! Porque o que não se vê, ou não existe, só pode ser
adivinhado!
À Granjinha chega-se lá com facilidade.
Da Granjinha sai-se de lá com dificuldade.
É das aldeias a mais pequenina.
Mas foi lá que, de todas as outras em seu redor, arribaram "cavaleiros
cervantinos" em demanda de Dulcineias.
De uma ponta à outra da Freguesia, toda aquela gente, todas aquelas
Famílias, tinham, e têm, enorme carisma.
E os "Pereiras", particularmente, por todos os lugares estavam (e estão)
enraizados.
Enérgicos, decididos, empenhados e solidários.
Um deles prendeu-se mais pela Granjinha. Até ao dia de hoje!
Tinha, e tem, um coração maior do que o mundo.
E, para disfarçar essa grandeza, usava aventais de rudeza que só enganavam
quem não o conhecesse ou .. quem o invejasse.
Enquanto funcionário numa Repartição Pública constituiu sempre um portal de
abrigo para os que sentiam dificuldades burocráticas;  um sinal de luz para
quem andava às escuras no Código .Civil. Era um trabalhador nos dias de
descanso ao serviço dos enlutados do concelho. É, foi sempre, um "portas -
abertas" cheio de franqueza e fartura para os amigos e visitas. É aquele
Amigo de peito, preocupado e incansável, à procura do amigo desaparecido.
É um Homem de Bem!
A Vida abençoou-o com uma Família «estremosa».
Mas merece mais!
Pelo menos, pelo menos, que a SAÚDE lhe regresse por inteiro.
Hoje, é este o meu abraço de amigo reconhecido.
Tupamaro
(Dedicado ao sr. João Pereira da Cruz e
à D. Nídia Rosa Petim, que com ele comunga os mesmos ideais)


publicado por J. Pereira às 22:29
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007
As Urgências no Hospital de Chaves
 Recebi este mail com o pedido de publicação para que todos os Flavienses e não só, se juntem numa mega manifestação a realizar no próximo dia 21 de Fevereiro com o sentido de protestar contra a iniciativa do Governo da República por pretender desqualificar o serviço de Urgências do Hospital de Chaves.
 
É um atentado contra a nossa dignidade e direitos aquilo que nos pretendem fazer.
 
Em terra de tão fracos recursos não nos podem tirar as condições minimas de dignidade e por isso apelo a todos quantos lerem este post ou que tenham conhecimento desta manifestação, que divulguem esta iniciativa e não que fiquem em casa no próximo dia 21.
 
Dia 21 de Fevereiro vamos todos ao Jardim das Freiras lutar pelos nossos direitos
 
121 instituições lutam pela Urgência

O movimento de indignação criado pelas forças políticas locais flavienses face à possibilidade da Urgência do Hospital de Chaves vir a ser desqualificada para básica tem novos associados.

Numa iniciativa sem paralelo, pelo menos recentemente, 121 instituições (incluindo órgãos autárquicos eleitos, juntas, câmaras e Assembleia Municipal) uniram-se contra a eventual despromoção das urgências, prevista no estudo final elaborado pela Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação da Rede de Urgências. E já começaram a batalha. Além de terem elaborado e enviado ao primeiro-ministro, José Sócrates, e ao presidente da República, Cavaco Silva, entre outros responsáveis políticos do país, um documento onde "repudiam de forma categórica a proposta de requalificação da urgência do hospital", já têm agendada uma mega-concentração para Chaves. A manifestação deverá acontecer na próxima quarta-feira entre as 10 horas e as 13 horas.

Aliás, ao que o JN conseguiu apurar, a mobilização da população deverá começar já nos próximos dias, com a distribuição de panfletos para convocar o maior número de pessoas possível.

No documento enviado a José Sócrates e a Cavaco Silva, o movimento enumerou os argumentos a favor da manutenção da Urgência e, por outro lado, apontou os "erros de palmatória" existentes no relatório final produzido pela comissão, com destaque para o facto de o estudo considerar que o Hospital de Chaves serve apenas o concelho flaviense (cerca de 44 mil pessoas), quando a unidade de saúde também é usada por milhares de habitantes de outros concelhos vizinhos do Alto Tâmega (mais de 80 mil utentes). A "omissão" de que Chaves e o Alto Tâmega constituem um Pólo Turístico Relevante é outro "defeito" apontado.

A favor da manutenção da actual Urgência, acrescentaram também o argumento de que a sua desclassificação põem em causa, por causa das "deficitária" rede viária interconcelhia, um principio básico defendido no âmbito da reforma, ou seja, que qualquer cidadão fique a 45 minutos de um serviço de urgência médico-cirúrgica. Se a Urgência for desclassificada, as populações das aldeias mais distantes de Chaves, Montalegre e Valpaços poderão ficarão a cerca de uma hora e meia. Margarida Luzio


publicado por J. Pereira às 00:31
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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
Carvoeiro e Advogado
 
 
 
Valdanta sempre foi uma terra de emigrantes.
Daqui partiram para Angola, Moçambique, Brasil, Uruguai, Argentina, Venezuela, Cuba, USA, Canadá e muitas outras paragens à procura do que a terra-mãe lhes negava.
A agricultura, por muito bonita que seja, nunca deu grandes rendimentos nem condições para melhoria de vida, por isso emigrava-se, concorria-se para a polícia, guarda-fiscal, republicana, florestal e outras actividades que dessem melhores regalias de vida.
O Cara, não sei se tinha outro nome, mas eu não o sei, também não foi excepção à regra e lá se foi para o Brasil à procura da tal árvore das patacas. Antes de emigrar, num daqueles dias (ou noite) em que a comida era pouca e a fome muita, passou pela taberna do senhor Álvaro e disse-lhe:
- Estou c’uma “ambre” que nem posso, mas tamém num tenho dinheiro para pagar agora.
O senhor Álbaro que até tinha confiança no moço, disse-lhe:
- Ó rapaz, se é por falta do dinheiro diz lá o que queres e depois lá pagarás quando puderes.
Naquele tempo usava-se muito nas tabernas, ter uns ovos cozidos para acompanhar com um copo de vinho, colocados em cima de uma tigela de sal que era para os conservar. O Cara olha para os ovos e diz:
- Ponha aí três obos, um trigo de Faiões e um quartilho de binho.
Comeu, consolou-se e em jeito de despedida foi dizendo para o taberneiro:
Ó senhor Álbaro, fique sossegado que quando receber umas geiras que me debem, benho logo pagar esta dívida.
Ó home, bai com Deus e num te preocupes.
Passado pouco tempo lá se vai o Cara para o Brasil sem arrumar as contas com o senhor Álvaro. Por lá andou alguns anos, fez vida e arrumou um pé-de-meia para poder regressar à terrinha.
Voltou com uns propósitos que nem parecia o mesmo, falando à brasileira, tratando tudo por “Cara” e esses coisas  próprias do sotaque do país irmão.
- Então Cara, ocê como vai? Está passando bem? Sua vida vai correndo? Graças à Deus também vô indo.
Como não podia deixar de ser lá se foi até à taberna do senhor Álvaro.
- Então o sior com vai? A vida tá correndo? Ocê si lembra di mim?
- Sim, eu lembro-me perfeitamente de ti e está tudo muito bem.
- Legali. Então bote aí uma rodada p´ra toda a gentche que aqui o cara paga.
Meia dúzia de macambúzios que estavam por ali a jogar à sueca aproveitaram logo para molhar a goela à grande e à custa do brasileiro. Para fazer render o peixe e aproveitar mais uns copos, perguntavam como era lá no Brasil, se tinha tido por lá muitas mulheres e como é que eram as brasileiras, se era o que se dizia delas. Enfim, tudo era pretexto para prolongar a conversa e os copos.
Já tudo bem composto e sem sede nenhuma o Cara vira-se para o taberneiro e diz:
- Olhe aí Cara, mi faça lá essa conta que eu pago tudo. Rigressei bem, graças à Deus e vô pagar memo tudo.
O senhor Álvaro puxa de um papel e de um lápis e começa a fazer as contas, perguntando:
- Lembras-te dos obos e do trigo que cumeste e do binho que bebeste antes de ir p’ró Brasil e num pagaste?
- Perfeitamente, bote aí qui eu pago tudo.
- Há quantos anos foste para o Brasil?
- Dez anos, Cara?
- Comeste 1 trigo, 3 obos e 1 quartilho de binho. Certo?
- Si siô.
O senhor Álvaro começa a fazer as contas de que 3 ovos davam tantas galinhas e tantas galinhas dariam muitos mais ovos e que esses ovos muitas mais galinhas dariam. Tudo somado e durante 10 anos dava uma fortuna que o Brasileiro ou Cara, como queiram, não tinha.
- Mi disculpe aí siô, mais isso é um exagero e eu não tenho esse dinheiro aqui comigo. Vô pagando a dispesa di hóije e o resto si vai ver.
- Eu confiei em ti. Tu disseste que pagabas. Já biste quanto perdi neste tempo todo?
Mais isso aí é um roubo. Assi, num vô pagá, não.
 
Foram para tribunal.
 
O Cara foi pensando como poderia dar volta à situação, até que um dia passou por ali um carvoeiro de Seara Velha, daqueles que vinham a Chaves uma ou duas vezes por semana vender brasas, carqueja ou carvão e em conversa com o Cara, este conta-lhe a sua situação. O carvoeiro de Barroso, responde-lhe prontamente.
- Se quisseres posso sser teu adbogado.
- Ó Cara, num vai gozá co’a minha cara, não. Como é qui ocê pode sê meu advogado? Num goza não.
- Bou sser ssim ssenhor e bou te librar desta.
 
Dia do julgamento.
 
O senhor Álvaro apresenta o seu advogado que começa com aquelas teorias e apresentações do costume que não vou descrever aqui, mas que todos conhecem.
O Cara, meio envergonhado apresenta como seu advogado o carvoeiro Barrosão, que até tinha aproveitado a vinda à cidade para trazer e vender mais uma carga de carvão, por isso estava todo enfarruscado.
O juiz, ao ver o carvoeiro, pergunta porque é que estava assim naquele estado, já que o Tribunal era um lugar de respeito e onde as pessoas se deveriam apresentar devidamente vestidas e limpas. Então o carvoeiro responde assim ao Juiz:
- Benho neste estado porque estive a’assar castanhas p’ra semear.
O Juiz admirado, pergunta-lhe:
- Como é que as castanhas assadas podem nascer?
- Da mesma maneira que nascem galinhas dos obos cozidos.
- Réu absolvido por falta de provas e ter prescrito o citado crime.
Foi esta a sentença imediata do senhor doutor juiz de direito do tribunal de comarca naquele dia de verão de ano incerto.
 
 
 
 


publicado por J. Pereira às 00:34
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
Debulhar Milho

Debulhar milho era uma tarefa relacionada com a agricultura, normalmente, reservada para grandes serões. Juntava-se as espigas do milho em varandas ou terraços para secar e quando, nas casas mais abastadas,  a quantidade armazenada dava para um serão, organizava-se então uma debulhada, onde ia toda a juventude.

As debulhadas (degranhar milho) mais famosas e onde aparecia mais gente eram, sem dúvida, nas casas onde havia raparigas, e em Valdanta havia várias onde não faltava pessoal.

Para degranhar o milho, os rapazes ou homens usavam uma enxada de ganchos que colocavam entre as pernas e faziam vários sulcos nas espigas. Chamava-se subelar as espigas. As raparigas ou mulheres acabavam de tirar o milho dos caroços roçando a espiga na asa de uma cesta das batatas ou  com outro caroço.

Estes serões eram sempre muito animados, cantava-se, bebia-se e jogava-se. Dos jogos mais tradicionais e de maior gosto da juventude era o do senhor Padre Cura. Não sei se serei capaz de trazer para aqui todo o entusiamo e alegria que isto nos dava. Era assim:

Uma pessoa era nomeada como o Padre Cura, ou seja era o que encaminhava o jogo. O Padre Cura dava, em segredo, um nome a cada pessoa que quisesse entra no jogo e que, normalmente era o nome de uma árvore.

Começava o jogo quando o Padre Cura dizia: Ia por aqui abaixo e sentei-me à sombra do pinheiro (por exemplo). A pessoa a quem foi atribuido o nome de "pinheiro" teria que responder:

- Engana-se o senhor padre cura.

O padre cura dizia:

- Mentes tu.

O outro:

- Engana-se o senhor padre Cura.

E estava-se nesta lenga-lenga até que um se engava ou o padre cura dizia:

- À sombra de quem estavas tu?

Este escolhia outra árvore e repetia-se a mesma conversa com muita rapidez.

Quando alguém se enganava tinha que cumprir um castigo ordenado pela pessoa com quem estava a discutir à sombra de quem estava. Normalmente para cumprir estes castigos, mandava-se o castigado gritar bem alto numa janela ou varanda uma intimidade qualquer e que a pessoa não gostasse de dizer. Por exemplo, se era um rapaz:

- "Eu gosto da Mariquinhas (nome da pretendida) e ela também gosta, mas a mãe dela não me pode ver".

E assim se passava um serão sempre alegre e com muito boa disposição e no fim comiam-se figos secos com nozes e bebia-se geropiga ou aguardente.



publicado por J. Pereira às 00:31
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007
Hospital Distrital de Chaves

Foi com um grande amargo de boca que recebi a notícia do encerramento das Urgências qualificadas no Hospital de Chaves, como antes tinha recebido a notícia de que com a conclusão da A24 (auto-estrada Chaves - Vila Real) iria encerrar a Maternidade de Chaves.

Não sou político, porque nunca gostei da forma de actuar desta classe altamente benificiada e sem escrúpulos, mas sou povo, povo deste Trás-os-Montes esquecido, burlado, prejudicado, achincalhado e sei lá mais o quê. Sou deste povo feito da mais simples e pura forma de vida. Sou feito de granito, xisto, urzes, carvalhos, queirogas e de tudo o que é forte e rijo. Fui criado com batatas, chicharros, feijão, couves, grelos e tomates criados com muito sacrifício e trabalho nas hortas de Valdanta.

Porque sou povo deste reino maravilhoso descrito por Miguel Torga sinto-me triste, escamoteado, roubado e humilhado com esta decisão dos nossos governantes, porque apenas e só pensam em números, mas só nos que lhe convém, porque não pensam no número de quilómetros a percorrer, no número de horas que demoram a chegar aos centros de atendimento qualificados, não pensam que as condições actuais de socorrer com urgência em qualquer hospital não são as ideais para o existente, quanto mais para a centralização num só hospital.

É com imensa revolta e indignação que ouço todos os dias que este e aquele serviço vão fechar e sem ver qualquer reação dos políticos locais. Vem hoje a público no Diário de Trás-os-Montes a reação dos políticos da região e que já me dá um bocadinho de ânimo, mas ao mesmo tempo pergunto: - Porque deixaram chegar a esta situação? Agora não será tarde demais? Espero que não e como, enquanto há vida há esperança, vamos em frente.

Deixo aqui o artigo publicado no Diário de Trás-os-Montes com a devida vénia.

.....

Os seis autarcas da Associação de Municípios do Alto Tâmega (AMAT) manifestaram-se ontem contra o encerramento dos serviços de saúde existentes em Vila Pouca de Aguiar e a desclassificação da urgência no Hospital de Chaves.

A proposta final da Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação das Urgências foi apresentada em 1 de Fevereiro pelos peritos que começaram a desenhar o novo mapa das urgências em Julho do ano passado.

Os presidentes das câmaras de Chaves (PSD), Vila Pouca de Aguiar (PSD-CDS/PP), Boticas (PSD), Montalegre (PS), Valpaços (PSD) e Ribeira de Pena (PSD-CDS/PP) juntaram-se hoje em Chaves, em conferência de imprensa, para manifestar total oposição às propostas da comissão técnica.

Em causa está designadamente o encerramento dos serviços de saúde existentes em Vila Pouca de Aguiar e a desclassificação das urgências do Hospital Distrital de Chaves, que actualmente apresentam características médico-cirúrgicas, para urgência básica.

O presidente da AMAT e da câmara de Vila Pouca de Aguiar, Domingos Dias, considera que as propostas lesam as populações do Alto Tâmega, adiantando que os municípios já solicitaram uma audiência, com carácter de “máxima urgência”, ao ministro da Saúde, Correia de Campos, para exporem “frontalmente” o que pensam sobre a melhor forma de servir a população local na área da saúde.

Domingos Dias diz que os autarcas vão esperar pela resposta “política” do ministro, mas garantiu que estão dispostos a unir a população e as forças partidárias numa grande manifestação.

-----------

Chaves - «Muito pior agora»

O presidente da Câmara de Chaves, João Baptista, afirmou que o relatório apresentado pela comissão “é muito pior do que o primeiro, apresentando erros grosseiros e não tendo em conta as opiniões dos municípios”. No documento inicial era proposto para Chaves uma urgência médico-cirúrgica, mas agora é proposta uma urgência básica.

....



publicado por J. Pereira às 10:10
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2007
Futebol de Primeira

Eu sempre disse que os rapazes de Valdanta são dotados futebolisticamente, e a fama já vem de longe.

Apresento-vos aqui uma equipa do início dos anos 50 que deu que falar com os resultados obtidos.

Conheci-os a todos e até joguei com quase todos mas não vou publicar agora os seus nomes, fico à espera dos vossos comentários. E já agora também espero pelo resultado do jogo e com quem jogaram.

 

 

Formação da Equipa

Não é fácil decifrar estes craques, embora alguns estejam ainda bem parecidos. O equipamento era azul claro (à Belenenses, com cruz de Cristo e tudo). Vamos então ao conteúdo: - De pé (Esrq.ª - D.ª) "João Mesquita (Esmorna), Quim Mesquita, Artur Parada, Narciso, Tantolina, Eliseu e Manuel Márcio (Treinador). Em baixo, pelo mesma ordem: - Pereira, Pitolho, Planeta (também jogador do Atlético ou do Flávia), Quim Patas e Manuel Valdegas.

 



publicado por J. Pereira às 23:27
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J. Pereira
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