Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Domingo, 25 de Fevereiro de 2007
""" UM C Ã O B E T E R N Á R I O """



Na Freguesia de VALDANTA, o preceito dominical era cumprido na Igreja de S.
Domingos.
Como de costume, antes do sermão de pequenos sermões aos paroquianos, o
padre fazia os «Avisos».
Naquele domingo, o padre avisou, além de mais, que ""na 5ª.fª. seguinte à 3ª
Feira semanal, que é às 4ªs.feiras, como toda a gente sabe, e a 1ª.Feira do
mês tinha sido na 4ª.fª passada, como estão lembrados, todos os cães da
Freguesia tinham de ser levados ao Doutor «Beternário» para serem
«ascultados» e «bacinados»"".
Avisou e sublinhou: -""Que ninguém falte, pois o Regedor sabia de todos quem
os tinha"".
No regresso da missa toda a gente trazia para as suas aldeias  -  Cando,
Abobeleira e Granjinha  -  os recados do sr. padre.
No estreito Largo da Capela, lá na Granjinha, o QUIM DAS CHARDAS ENCONTROU O
TIO QUIM DA TI'AUGUSTA.
Falaram do tempo, das batatas, das vinhas, do gado ...e dos cães.
- "Então ó Quim, sempre vais à cidade levar o cão? - pergunta o TIO QUIM DA
TI'AUGUSTA, a começar um novo capítulo da conversa.
- O QUIM DAS CHARDAS espirra, e responde:
- ""ÒMESSAPORRA!""
- "Então porquê?" - pergunta o TIO QUIM DA TI'AUGUSTA.
- ""O cão é manso. Está bem tratado. É fino que nem um ladrão! - acrescenta
o QUIM DAS CHARDAS. "Nesse dia queria ir até ao "Valcovo" cortar um lenha",
remata.
- "Pois é!" - diz o TIO QUIM DA TI'AUGUSTA. -"Mas lá tem que ser!"
O QUIM DAS CHARDAS voltou a espirrar.
E lá foram à vida de cada um.
Os dias seguintes ao dia da missa passou-os o QUIM DAS CHARDAS com menos
tranquilidade do que aquela que sempre levava consigo.
Coçava a cabeça   -  não era dos piolhos, ó marotos! - e, às vezes, falava
sozinho.
Sempre que ia segar erva, lavrar, regar, roçar mato, levar o gado a beber ou
ir de uma casa a outra, o seu fiel cão acompanhava-o para todo o lado.
Naqueles dias seguintes, o QUIM DAS CHARDAS resolveu chamar o cão por outros
nomes: Tejo, Leão, Tormenta, Nero, e sei lá que mais!
Mas o cão não se dava por achado.
Na 5ªfª. seguinte à 4ª.fª. da 3ª Feira do mês os cães da Freguesia lá foram
à Cidade.
E o QUIM DAS CHARDAS levou o dele.
As Feiras e as «Vacinas dos cães» também são oportunidades de se estar com
os amigos, saber notícias dos outros lugares e até de se combinarem alguns
negócios.
O QUIM AVELEDA, do CANDO, notou no QUIM DAS CHARDAS um ar que não era
costume.
Virou-se para o QUIM DO TI'ANTÓNIO CARNEIRO, do CANDO, e alvitrou:
-" Ó QUIM, o QUIM DAS CHARDAS está com uma cara «esquesita». Se calhar é
pela demora em passar pelo Mondariz para petiscar umas almôndegas " - no
tempo em que a Tasca do Galego fazia de sala de espera da Casa de Saúde do
Dr. Alcino. "Ou então pelo atraso em se passar pela Taberna do Branco"-
local de celebração de despedida dos que iam  para a Granjinha, Cando e
Valdanta.
-"Bem m'eu finto!" - retorquiu ambiguamente o QUIM DO TI'ANTÓNIO CARNEIRO,
do CANDO.


Chegou a vez do cão do QUIM DAS CHARDAS.
- Então, sr. Joaquim, vem de Valdanta? -  inquire o Doutor «Beternário».
- Sou de Valdanta, senhor doutor, sim, senhor. Mas venho da GRANJINHA  -
respondeu, respeitosamente, o QUIM DAS CHARDAS.
- Ah! Muito bem!  -  diz o Doutor,
- Então o cão queixa-se de alguma coisa?  - pergunta o «Beternário».
- Bem, senhor doutor, ele come que nem um boi, ladra que nem um burro e
corre que nem um cavalo!  -  diagnostica o QUIM DAS CHARDAS.
Enquanto prepara a vacina, o Doutor lança o seu científico olhar ao
fissípede, e pergunta:
- Ó sr. Joaquim, como é que se chama o cão?
(Não fosse o QUIM DAS CHARDAS aquele homem valente que toda a gente conhece
e lá teria o Doutor Barnard de antecipar o seu transplante!...)
O QUIM DAS CHARDAS espirrou. Voltou a espirrar. E voltou a espirrar!
O Doutor vacinou, vacilou e olhou para o dono do cão.
- Então por que nome dá o cão, sr. Joaquim? - acentuou o «Beternário».
-Ó senhor Doutor, espero que não se ofenda. Mas é que me custa dizê-lo! - 
desabafou o QUIM DAS CHARDAS, com aquele jeito de voz tremelicada,
acompanhado daquele «dar de ombro» tão seu.
-Ó homem, esteja à vontade! -  contemporizou o Doutor. Diga lá o nome do
bicho!
O QUIM DAS CHARDAS volta a espirrar . e a espirrar. Cora que nem um pimento.
Trejeita o ombro com aquele «dar de ombro» tão seu, e exclama:
- ""DOUTOR"", senhor Doutor!!!


(Em memória de Dois Amigos, da Granjinha)
Tupamaro

sinto-me: Honrado

publicado por J. Pereira às 00:36
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4 comentários:
De A.Cruz a 25 de Fevereiro de 2007 às 13:22
Tupamaro continua a surpreender!!!
Absolutamente delicioso, eu lembrou-me de ouvir falar no Sr.Doutor de viva voz pelo próprio " Quim da Chardas " e de outros episódios rocambolescos que ele contava de fazer arrepiar, por ex. a estória do "fantasma, do ser, ou do vulto" que lhe teria aparecido, quando durante a noite procurava uma burra das CHARDAS "., ao que que ele respondeu à estadulhada e ó car ...valho, ó car ....valho! que até conseguiu assustar a tal "coisa" que não conseguiu explicar a sua origem....
Do Tio Quim da Tia Augusta, também me lembro mas mal, mas são estas estórias verídicas absolutamente imperdíveis que nos fazem relembrar com carinho aqueles que já nos deixaram.
Também eu Tupamaro lhe estou grato, por transmitir a "esta" geração estas lembranças de pessoas boas e simples da nossa freguesia
Obrigado.
A foto é tirada no "Alto das Cruzes" ? Verdade?


De J. Pereira a 25 de Fevereiro de 2007 às 21:11
É verdade. O Tupamaro continua a surpreender-nos e pela positiva. É, de facto, esta acolaboração que eu quero de todos. Venham.
A fotografia foi tirada mesmo em frente ao caminho da Veiga da Granja, mas virado para a cidade.


De Dinis Ponteira a 27 de Fevereiro de 2007 às 22:34
Magnifica. parabéns.
um abraço


De broncasdocamilo a 12 de Março de 2007 às 00:51
Uma pérola!!
Camilo.


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J. Pereira
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