Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
Carvoeiro e Advogado
 
 
 
Valdanta sempre foi uma terra de emigrantes.
Daqui partiram para Angola, Moçambique, Brasil, Uruguai, Argentina, Venezuela, Cuba, USA, Canadá e muitas outras paragens à procura do que a terra-mãe lhes negava.
A agricultura, por muito bonita que seja, nunca deu grandes rendimentos nem condições para melhoria de vida, por isso emigrava-se, concorria-se para a polícia, guarda-fiscal, republicana, florestal e outras actividades que dessem melhores regalias de vida.
O Cara, não sei se tinha outro nome, mas eu não o sei, também não foi excepção à regra e lá se foi para o Brasil à procura da tal árvore das patacas. Antes de emigrar, num daqueles dias (ou noite) em que a comida era pouca e a fome muita, passou pela taberna do senhor Álvaro e disse-lhe:
- Estou c’uma “ambre” que nem posso, mas tamém num tenho dinheiro para pagar agora.
O senhor Álbaro que até tinha confiança no moço, disse-lhe:
- Ó rapaz, se é por falta do dinheiro diz lá o que queres e depois lá pagarás quando puderes.
Naquele tempo usava-se muito nas tabernas, ter uns ovos cozidos para acompanhar com um copo de vinho, colocados em cima de uma tigela de sal que era para os conservar. O Cara olha para os ovos e diz:
- Ponha aí três obos, um trigo de Faiões e um quartilho de binho.
Comeu, consolou-se e em jeito de despedida foi dizendo para o taberneiro:
Ó senhor Álbaro, fique sossegado que quando receber umas geiras que me debem, benho logo pagar esta dívida.
Ó home, bai com Deus e num te preocupes.
Passado pouco tempo lá se vai o Cara para o Brasil sem arrumar as contas com o senhor Álvaro. Por lá andou alguns anos, fez vida e arrumou um pé-de-meia para poder regressar à terrinha.
Voltou com uns propósitos que nem parecia o mesmo, falando à brasileira, tratando tudo por “Cara” e esses coisas  próprias do sotaque do país irmão.
- Então Cara, ocê como vai? Está passando bem? Sua vida vai correndo? Graças à Deus também vô indo.
Como não podia deixar de ser lá se foi até à taberna do senhor Álvaro.
- Então o sior com vai? A vida tá correndo? Ocê si lembra di mim?
- Sim, eu lembro-me perfeitamente de ti e está tudo muito bem.
- Legali. Então bote aí uma rodada p´ra toda a gentche que aqui o cara paga.
Meia dúzia de macambúzios que estavam por ali a jogar à sueca aproveitaram logo para molhar a goela à grande e à custa do brasileiro. Para fazer render o peixe e aproveitar mais uns copos, perguntavam como era lá no Brasil, se tinha tido por lá muitas mulheres e como é que eram as brasileiras, se era o que se dizia delas. Enfim, tudo era pretexto para prolongar a conversa e os copos.
Já tudo bem composto e sem sede nenhuma o Cara vira-se para o taberneiro e diz:
- Olhe aí Cara, mi faça lá essa conta que eu pago tudo. Rigressei bem, graças à Deus e vô pagar memo tudo.
O senhor Álvaro puxa de um papel e de um lápis e começa a fazer as contas, perguntando:
- Lembras-te dos obos e do trigo que cumeste e do binho que bebeste antes de ir p’ró Brasil e num pagaste?
- Perfeitamente, bote aí qui eu pago tudo.
- Há quantos anos foste para o Brasil?
- Dez anos, Cara?
- Comeste 1 trigo, 3 obos e 1 quartilho de binho. Certo?
- Si siô.
O senhor Álvaro começa a fazer as contas de que 3 ovos davam tantas galinhas e tantas galinhas dariam muitos mais ovos e que esses ovos muitas mais galinhas dariam. Tudo somado e durante 10 anos dava uma fortuna que o Brasileiro ou Cara, como queiram, não tinha.
- Mi disculpe aí siô, mais isso é um exagero e eu não tenho esse dinheiro aqui comigo. Vô pagando a dispesa di hóije e o resto si vai ver.
- Eu confiei em ti. Tu disseste que pagabas. Já biste quanto perdi neste tempo todo?
Mais isso aí é um roubo. Assi, num vô pagá, não.
 
Foram para tribunal.
 
O Cara foi pensando como poderia dar volta à situação, até que um dia passou por ali um carvoeiro de Seara Velha, daqueles que vinham a Chaves uma ou duas vezes por semana vender brasas, carqueja ou carvão e em conversa com o Cara, este conta-lhe a sua situação. O carvoeiro de Barroso, responde-lhe prontamente.
- Se quisseres posso sser teu adbogado.
- Ó Cara, num vai gozá co’a minha cara, não. Como é qui ocê pode sê meu advogado? Num goza não.
- Bou sser ssim ssenhor e bou te librar desta.
 
Dia do julgamento.
 
O senhor Álvaro apresenta o seu advogado que começa com aquelas teorias e apresentações do costume que não vou descrever aqui, mas que todos conhecem.
O Cara, meio envergonhado apresenta como seu advogado o carvoeiro Barrosão, que até tinha aproveitado a vinda à cidade para trazer e vender mais uma carga de carvão, por isso estava todo enfarruscado.
O juiz, ao ver o carvoeiro, pergunta porque é que estava assim naquele estado, já que o Tribunal era um lugar de respeito e onde as pessoas se deveriam apresentar devidamente vestidas e limpas. Então o carvoeiro responde assim ao Juiz:
- Benho neste estado porque estive a’assar castanhas p’ra semear.
O Juiz admirado, pergunta-lhe:
- Como é que as castanhas assadas podem nascer?
- Da mesma maneira que nascem galinhas dos obos cozidos.
- Réu absolvido por falta de provas e ter prescrito o citado crime.
Foi esta a sentença imediata do senhor doutor juiz de direito do tribunal de comarca naquele dia de verão de ano incerto.
 
 
 
 


publicado por J. Pereira às 00:34
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De Tupamaro a 15 de Fevereiro de 2007 às 09:21
Pois! '"Atão'" agora digam lá se VALDANTA não DEVE TER um MUSEU, uma BIBLIOBLeROTECA, uma GALERIA de Arte, um Arco de Triunfo, uma Academia Recreativa e Cultural, uma Selecção de Futebol, uma Delegação da ONU, uma "PASSARELLE" , um Taj-Mahal...e...!
Tupamaro


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