Imagens, Comentários e Estórias de Valdanta (Chaves) e das suas gentes. O meu endereço é "pereira.mos@sapo.pt"
Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007
Ferreiro de Valdanta

O ferreiro de Valdanta foi uma daquelas pessoas que passou por lá e que, talvez, não haja ninguém que tenha convivido com ele e que o tenha esquecido.

Quando éramos miúdos e tinhamos "coxo", "epigens" ou outra maleita do género, levavam-nos ao ferreiro para fazer, na forja, um óleo de nóz com que nos curava. Ia-se ao ferreiro para aguçar um pico ou um sacho ou outro qualquer serviço da sua arte. Ia-se ao ferreiro até e apenas para nos aquecermos na forja, oferecendo-nos para dar ao fole. Quando uma enxada já estava muito gasta dizia-se:

- Leba o ôlho ó ferreiro qu'ele faz-te uma noba!...

Não sei ao certo de onde era natural o senhor António ferreiro, mas suponho que era de Santa Comba de Vales no concelho de Mirandela. Casou na Abobeleira e foi para Valdanta onde se instalou com uma forja junto à estrada, naquela casa amarela que se vê na fotografia, e por aí trabalhou e viveu. Teve uma quantidade enorme de filhos, não sei ao certo quantos, alguns com idades próximas da minha, com quem convivi e andei na escola, como o Zé, a Helena, o Aniceto, o Horácio e a Laida. Dos mais velhos, recordo-me da Alzira, da Alice, do João e do Manuel. Não sei se havia mais. O Horácio que vive em Viseu, se por acaso tiver conhecimento disto, que nos esclareça.

A maneira de falar dele era muito engraçada. Quando lhe perguntavam porque é que tinha tantos filhos, respondia acentuando muito os "ss":

- "É a minha Subana, (Silvana) é só uma chiscadela e já está".

Gostava muito de uma pinga de vinho, mas, para ele, não havia como o do Quim Morilho. Quando ia para a Abobeleira, entregar obra feita ou tratar dos terrenos que por lá tinha, passava sempre por casa do Morilho com o sentido de beber um copito, e então dizia:

- Ó Morilho cadalho, tenho uma sede do cadalho, e só o teu binho é que me mata a sede, cadalho, dá cá um copo cadalho.

O Morilho, que gostava de o ouvir, dizia-lhe:

- Atão na Abobeleira num te deram de buber?

- Deram cadalho, mas só o teu binho é que me mata a sede cadalho, dá cá um copo cadalho.

Era sempre assim quando o Ferreiro passava pela casa do Morilho e eu, também com o sentido que o Morilho me molhasse a garganta, lá me aproximava para ouvir as histórias do Ferreiro.

Também fumava bastante, daqueles cigarros chamados "mata-ratos", mas um dia adoeceu e teve que ir ao médico.

Foi a Chaves a uma consulta. O médico fez-lhe umas perguntas, uns exames, auscultou-o e torceu o nariz. Virou-se para ele, com cara de quem não gostou nada do estado de saúde do Ferreiro, e disse-lhe:

- Ó senhor António! ... O senhor se quizer continuar a viver por mais uns tempos tem que deixar de fumar e beber!... (mais uma torcedela de nariz) Senão....

O Ferreiro coça a cabeça, olha para o médico de soslaio, dá uma volta ao chapéu que tinha pousado nos joelhos e que por acaso até já nem parecia chapéu nem nada, ou antes, mais parecia um capacho do lagar de azeite, vira-se para o médico e diz com muita convição:

- Ó senhor doitor, cadalho, entes quero continuar a fumar do que deixar de buber, cadalho!...

 



publicado por J. Pereira às 23:06
link do post | comentar | favorito

14 comentários:
De A.Cruz a 26 de Janeiro de 2007 às 11:56
Amigo "Pereira" a ideia dos Cromos é genial !!!
Já agora porque não fazer recolha dos "Cromos" ou figuras típicas de toda a freguesia ?
Sabe, tenho cá a "remoer" a ideia que se entre o pessoal que gosta da nossa freguesia, naturais, residentes, amigos e outros fosse constituída uma "Associação", para defender os interesses da nossa freguesia, a todos os níveis. Tradições, património arquitectónico, património ecológico, etc.
O J.Pereira e o Jorge Romão, já têm uma recolha importante a todos os níveis...."Atrevo-me" a lançar o repto também ao J.Romão .
A Associação deverá aglutinar todas e quaisquer pessoas, que tivessem interesse em defender as "as cores da nossa freguesia", sendo laica, apartidária e totalmente independente, para não se tornar vulnerável a qualquer tipo de "pressão".
Não sei se poderá ser concretizável..., mas fica a ideia de boa intenção. Pois acho que a freguesia de Vale de Anta merece mais !!!
Um abraço.


De Sem Nome a 26 de Janeiro de 2007 às 12:39
A. Cruz, (também Zé, não?),
Não haverá aí pela Granjinha umas bibliotecárias memórias do TIO ZÉ L I T A"?
Ora dê lá essa ajuda (com a ajuda do GRANJINHA) ao Zé "Encantador" de Valdanta - vulgo Zé d'Arminda.
Fico particularmente comovido (contente) sempre que leio comentários assinados A.Cruz.
Tupamaro


De J. Pereira a 26 de Janeiro de 2007 às 14:53
Amigos Cruz e Tupamaro
Uma Assiciação Cultural em Valdanta seria um sonho que para mim continua um um sonho. Quando se fundou em Valdanta um Club de Futebol pensei que era dessa, mas não. Os meus vagares, por enquanto são muito escassos e também não tenho assim tanta documentação a não ser a minha memória. Fica a ideia e vamos amadurecê-la. Amanhã espero encontrar-vos, principalmente o Tupamaro. Um abraço e até amanhã.


De A.Cruz a 27 de Janeiro de 2007 às 12:58
Amigo Pereira, fico contente por não por de parte a ideia da Associação ! Eu próprio gostava de dar mais atenção aos blogs da freguesia e tentar colaborar humildemente. Mas neste momento a minha vida profissional e pessoal divide-se semanalmente entre Chaves e Porto, o que torna difícil a gestão do tempo para quaisquer acções ou "distracções" de qualquer forma. De qualquer maneira tento deitar sempre o olhar para estas janelas(Vale de Anta e Valdanta) sempre que posso que até já se está a tornar uma "obsessão" no bom sentido é claro. Mas se a ideia amadurecer para bem da nossa freguesia, é claro que o tempo surgirá. Quanto à documentação teria de se partir talvez para a "recolha oral" enquanto existem os tais "cromos", tão ricos em "estórias".
Aproveito para cumprimentar Tupamaro e dizer que vou tentar "descobrir algo sobre o "Tio Zé Lita" e porque não acerca de....vou atrever-me a dizer espero que não se ofenda se eu estiver certo, porque estou como compreende a imaginar, ligações de Tupamaro à Granjinha, pois a seu personagem fascina-me, especialmente o seu pseudónimo, mas sempre com a privacidade que se exige estou sempre a imaginar alguém no campo da hipótese. É que ter alguém com tanto interesse pela Granjinha que ainda agora é tão desprezada, também me emociona. Irei também procurar memórias de um outro "Garanjinense " que ouço falar (talvez) "Santa Leocádia"..... No entanto as memórias dos antepassados estão a desaparecer, porque estão a desaparecer também quem guardava as memórias de outrora. Ficam as, as fontes, os lugarezinhos típicos, os monumentos, e ..... o "lugar material" onde a nossa mãe nos trouxe ao mundo....
Um Abraço em simultâneo para o J.Pereira e para Tupamaro.


De A.Cruz a 28 de Janeiro de 2007 às 15:29
Amigo Tupamaro !
Tentando responder ao seu pedido e dando sequência ao comentário anterior, tenho novidades !!!
Repare descobri que o "Tio Zé Lita " era irmão do meu bisavô, do "Tio Joaquim Parente da Granjinha" e também irmão da "Tia Quinhas " a mulher do Tio António Guarda, descobri também onde viveu, uma casa agora em ruínas , em frente à casa que é agora da Henriqueta Chardas ". Perguntando pelas casas que ainda existem em redor, descobri também uma casa agora reconstruída que outrora foi de um outro Granjinhense " que faz parte da memória dos poucos moradores mais antigos de nome talvez Miguel Alves ...
Vou tentar logo que possa falar com gente de "outrora", A Elisa, o Jurel , a Bárbara, para tentar descobrir alguma façanha do "Tio Zé Lita "
Já agora aceda ao Blog. de Fer.Ribeiro.Foto de Chaves Rural de hoje 28/01/2007 e terá uma surpresa ...
Um abraço sincero do amigo !

Já agora o meu amigo J.Pereira que desculpe eu estar a utilizar o seu "veículo"!


De J. Pereira a 28 de Janeiro de 2007 às 15:51
Cruz
Ontem estive na Granjinha. Bati à porta da casa dos seus pais. Fiquei triste por saber que continua hospitalizada. Falei com um vizinho que me disse ser de Chaves, mas estar casado e viver na Granjinha há 52 anos, suponho que se chama Tomé. Falava abertamente e sem receios mas não me conseguiu dar aquilo a qu eu ia à procura, "estórias", talvez também porque quem eu queria encontrar, não estava. Para o seu pai desejo uma rápida recuperação e, espero, que quando voltar a Valdanta, seja ele a contar-me as tais estórias.
Um grande abraço para si e para a sua família.


De Sem Nome a 16 de Fevereiro de 2007 às 22:19
Mensagem ao MELHOR PAI DO MUNDO

O Morilho de Valdanta era um homem com H (maiúscula). Era o meu PAI.
Que maravilha de PAI...
Que saúdades tenho de ti PAi...
Ainda bem que te recordam com saúdade.
Se me estiveres a ver lá do céu... sorri para mim, PAI... como sempre o fizeste.
Um beijinho muito grande


De J. Pereira a 17 de Fevereiro de 2007 às 00:21
Lai Lai
O teu pai sempre foi uma pessoa boa. Antigamente. para fazer qualquer coisa em prol da sociedade reuniam-se os "Homens Bons" da aldeia. O Quim Morilho merecia esse título. Há outra estória dele com o título "Rebusqueiros".
Beijos


De cmpsantos a 18 de Fevereiro de 2007 às 23:28
Ninguém passava no caminho da lameira que não desse um grito. HÓ Murilho!!! muitas vezes só se houvia o assobio de resposta, mas sempre que estava em casa respondia.
Todos nós que convive-mos com Ele o recorda-mos com soudades.
Um abraço para todos!


De J. Pereira a 19 de Fevereiro de 2007 às 00:25
Já alguém se lembrou de que, eu devia contar aqui algumas das minhas estórias, mas eu acho que esse serviço deve ser feito por outra pessoa que não eu.
Porém, hoje vou fazer uma excepção à regra e vou contar aqui uma estáoria da minha relação com o Quim Morilho.
A casa dele já não existe, mas mesmo que existisse, poucos se lembram da escada de acesso à casa que era em frente à minha (casa de cima). Quando o Morilho passava metia-se sempre comigo e dizia: - Ó Zé, já apanhaste hoje?
- Não, hoje ainda não apanhei!
respondia eu todo contente, se por acaso ainda não tinha estriado a soca ou a vide ou o rabo da vassoura. Também porque ele sabia sempre se eu estava em casa ou não, pelo barulho que eu fazia.
Se ainda não tina apanhado, a minha mãe dizia:
- Não tarda muito!...
Isto porque era sagrado e rigorosamente respeitado. Todos os dias eu "mamava-as", e engraçado que não fiquei traumatizado como ficam agora os miúdos.
´Quando estava para as levar, também não fugia, esperava porque quanto mais depressa as levasse, mais depressa passava, e porque a minha mãe dizia:
- Quem foge também se agarra...



De Sem Nome a 21 de Fevereiro de 2007 às 18:54
Mais uma vez comovida...

Um beijinho grande! (para todos)

Braga


De SexMachine a 6 de Março de 2007 às 00:57


Fiquei cumobido, ó ber aqui a istória do mê tio Tone Ferreiro, era um ome caté u ferro dubraba.

Era buraxxão cumó carago (axo qué de familia), mas grandes carraspanas capanhaba em caza du ti Morilho.

grande Ome aquele, e tinha cempre boa pinga.

inda eide ir aí buber uns copos este ano.

dois ou trez im memoria du ti Tone e tamém pra ber amalta da noça terra.

Inda malembro quando abia festas na terra, o Cando era a terra com mais buraxxões nu quinse dAgosto. Nóz, us do Cando, héramos us milhores a buber.

Nóz nem pressizabamus dir a iscola a BaleDanta, iamus à taberna i lá éqse apremdia u qué a bida.


Niu Bedford - March 2007





De curioso a 7 de Março de 2007 às 09:58
Quem és tu???

A que família pertences no Cando?


De Lai Cruz a 8 de Março de 2007 às 13:49
Viva senhor SexMachine!

Fiquei contente por se lembrar de meu pai, o "Quim Morilho". Mas não estou a ver quem seja. Mesmo assim agradeço o comentário que fez dele.

Um abraço



Comentar post

J. Pereira
Março 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


O Tempo em Valdanta
blog-logo
Flavienses TT
Visitas
posts recentes

Uma Matança em Valdanta

Mais reis

Os Reis de 2013 cantados ...

S. Domingos

Cantos da minha paixão

O Folar de Chaves

Neblina até Curalha

Grupo AMIZADE

CALDO DO POTE (para o Nov...

Boas Festas

O Cando com Encanto

Valdanta está em festa

Festa de S. Domingos - Pr...

Um amigo está doente

“Maldição de S. CAETANO(?...

Xinder

Princípio do Fim

Brincadeiras

UMA PÁSCOA EM TEMPO DE CR...

Missa de 7.º Dia

Recantos da minha Terra

Geração à Rasca

Valdantenses por outras p...

A Primavera vem aí

S. Domingos 2011

Amendoeiras em Flor

Reflexos

Tive Sorte

Recantos

Beleza de Valdanta e do M...

Esclarecimento

O recreio da minha escola

Um bom serão

Torneio de FUTSAL

Os Reis

Hoje é dia de Reis

Feliz 2011

Feliz Natal

Matança do Reco na ABOBEL...

O Blero

G. D. de Chaves (anos 50)

4.º Aniversário do Blog

S. Domingos - Resumo da s...

Ovelheiro

Igreja da Abobeleira

Nadir Afonso - Doutor Hon...

Encontro dos Bloguistas d...

Recanto de Valdanta

A D. Maria Isabel faleceu

É preciso ir aos treinos

arquivo

Março 2013

Janeiro 2013

Agosto 2012

Maio 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006